Cinco anos após o assassinato do produtor rural Paulo Sérgio de Freitas Miranda em Naviraí, o genro dele, Tiago da Rosa Marcos, vai a júri. Ele é acusado de ter planejado a morte do sogro junto da esposa, Dayane Claudino Miranda Marcos, filha da vítima. Segundo a investigação, o crime teria sido motivado pelo interesse do casal na herança da família.
O júri de Tiago está marcado para 3 de novembro de 2026. Dayane também responde pelo assassinato em liberdade e será julgada em outra sessão. O processo envolve ainda outros acusados de participação no crime.
O g1 não conseguiu contato com a defesa dos réus.
O caso
Paulo Sérgio tinha 57 anos quando foi baleado no sul do estado. Ele foi levado para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas morreu três dias depois do crime, em setembro.
A morte deu início a uma investigação que levou à prisão de integrantes do grupo apontado pela polícia como responsável pelo planejamento e execução do homicídio.
Para Nathaliê Cortes, filha de Paulo e irmã de Dayane, a realização do júri representa mais uma etapa de um processo que, segundo ela, mantém a família presa ao passado.
“É muito difícil porque fazem cinco anos que nós não conseguimos seguir a vida. Sempre que retorna esse problema, ele não foi solucionado ainda”, afirma.
Acusação aponta interesse na herança
De acordo com a investigação, Tiago e Dayane enfrentavam dificuldades financeiras e teriam planejado a morte de Paulo para ter acesso à herança.
As investigações apontaram que terras onde o casal vivia no Paraná ainda estavam registradas em nome do produtor rural.Além de Paulo, a esposa dele e mãe de Dayane também teria sido incluída no plano.
Segundo a polícia, um primo de Tiago teria atuado como intermediário na contratação dos executores. Os investigadores identificaram ainda um motorista responsável por ajudar na fuga e dois homens apontados como pistoleiros.
A polícia também encontrou registros de contatos telefônicos entre pessoas envolvidas no crime antes e depois do assassinato. Durante a investigação, um dos suspeitos confessou a participação e relatou como o crime teria sido planejado e executado.
Um dos homens apontados como executor morreu no Paraná durante um confronto com policiais.
Família mudou de estado após assassinato
Depois da morte de Paulo, Nathaliê e a mãe deixaram Mato Grosso do Sul e se mudaram para o interior São Paulo para ficar perto de familiares.
Ela conta que a mudança ocorreu de forma repentina, em meio ao medo de que novos ataques pudessem acontecer.
“Ficamos sem chão. A polícia nos alertava para tomar cuidado, que isso poderia vir a acontecer de novo”, relata.
Nathaliê tinha 21 anos quando o pai foi assassinado. Hoje, aos 26, diz que conseguiu reconstruir parte da rotina. Abriu um negócio, se casou e passou a morar com a mãe.
Mesmo assim, afirma que a família ainda evita divulgar o endereço onde vive por causa da insegurança. Após o crime, Nathaliê também passou por um período de depressão.
“Meu pai era um homem sensacional. Sempre fiz terapia, então nesses cinco anos que tudo aconteceu eu tento trabalhar minha parte espiritual, tento controlar tudo na terapia, trabalho, vou na academia, tenho minha rotina.”
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Tiago e Dayane, acusados como mandantes do assassinato de produtor rural em MS. — Foto: Redes Sociais
“Falei para os meus pais antes do Dia dos Pais. Aí decidi que iria falar para a minha irmã, mas não era para ela largar dele", relata.
Segundo Nathaliê, ela disse à irmã que Tiago precisava de ajuda. Dayane, porém, permaneceu ao lado do marido. Depois do episódio, houve um afastamento entre o casal e o restante da família.
A denúncia contra Tiago foi registrada posteriormente. Ele negou o abuso e, no ano passado, foi condenado a 14 anos de prisão pelo crime de estupro. A defesa recorreu da decisão, e o recurso ainda não foi julgado, segundo Nathaliê.
Para ela, o conflito familiar é uma parte importante da história que antecedeu o assassinato do pai. Segundo as investigações sobre o homicídio, a motivação apontada para o crime, porém, foi o interesse na herança da família.
Cinco anos de espera
Para a família de Paulo, a demora na conclusão dos processos é uma das principais dificuldades desde o assassinato.
O júri marcado para novembro será apenas de Tiago. Depois, deverão ser definidas as datas dos julgamentos de Dayane e dos demais acusados.
“Essa parte do Ministério Público a gente fica bem insatisfeito, porque tudo demora para julgar. Cada recurso que eles pedem é uma demora”, afirma Nathaliê.
Relembre o caso
Paulo Sérgio de Freitas Miranda foi assassinado a tiros em Naviraí, em setembro de 2021, segundo os registros da investigação. A Polícia Civil passou a apurar a participação de familiares logo após o crime.
As primeiras suspeitas recaíram sobre o genro, o primo dele e outras pessoas que teriam participado da contratação dos executores.
Durante a investigação, policiais identificaram veículos usados na ação, localizaram suspeitos e apreenderam celulares e outros objetos.
A operação recebeu o nome de Indignus Heres, em referência ao artigo 1.814 do Código Civil, que prevê a perda do direito à herança em determinadas situações de indignidade.
Ao longo das investigações, seis pessoas foram apontadas como envolvidas no crime, entre elas Tiago e Dayane.

