‘Empresas vão substituir funcionários por tecnologia’, diz FCDL-MS sobre fim da escala 6×1

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O debate sobre o fim da escala 6×1 avança no Brasil e tem provocado reações entre trabalhadores e representantes do setor empresarial. Em Mato Grosso do Sul, a mudança poderia beneficiar cerca de 239,5 mil pessoas que atualmente trabalham seis dias por semana e têm apenas um dia de descanso, conforme dados do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego).

Se aprovada, a proposta prevê uma redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, além do fim da escala 6×1, sem redução salarial. Atualmente, cerca de 37,2 milhões de brasileiros cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais — o equivalente a aproximadamente 74% dos trabalhadores com carteira assinada no país.

Comércio teme impactos da medida

A medida, no entanto, acendeu um alerta no setor produtivo. Em nota, a FCDL-MS (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul) demonstrou preocupação com os impactos econômicos da proposta, principalmente para pequenas e microempresas.

Para a presidente da entidade, Inês Santiago, a redução compulsória da jornada pode elevar significativamente os custos operacionais das empresas. Além disso, poderia estimular o crescimento da informalidade e a redução de vagas de emprego.

 

 

“A proposta anunciada em Brasília acende um alerta extremamente importante para o varejo brasileiro, especialmente em um momento de forte pressão econômica”, afirmou.

Consumidores no Centro da cidade. (Foto: Ilustrativa, Marcos Ermínio, Midiamax/Arquivo)

Segundo ela, muitas empresas já vêm substituindo funções por tecnologia como forma de reduzir despesas trabalhistas e manter a competitividade.

“Isso significa um aumento estrutural de custos, com impacto direto especialmente sobre pequenas e microempresas, além de um risco concreto de redução de vagas, informalidade e aceleração da automação”, declarou.

Na avaliação da entidade, uma mudança brusca na jornada de trabalho pode intensificar esse movimento e acabar atingindo justamente os trabalhadores que a proposta pretende beneficiar.

Produtividade

Imagem ilustrativa. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Outro ponto levantado pela FCDL-MS é a necessidade de discutir produtividade antes da redução da carga horária.

“O Brasil precisa discutir produtividade antes de discutir redução compulsória de jornada”, afirmou Inês Santiago.

 A entidade defende que o debate no Congresso Nacional leve em consideração os impactos econômicos sobre o comércio, a geração de empregos e a sobrevivência das pequenas empresas.

“Nós esperamos que esse debate no Congresso Nacional ocorra com responsabilidade econômica e social, diálogo e análise profunda dos impactos econômicos, para que o país não transforme uma boa intenção em insegurança econômica e desemprego”, acrescentou a presidente da federação.

Países já adotam jornadas menores

Em contraponto, o Governo Federal argumenta que a proposta acompanha transformações recentes da economia, como os avanços tecnológicos e os ganhos de produtividade. Segundo o Executivo, jornadas mais equilibradas tendem a reduzir afastamentos, melhorar o desempenho dos trabalhadores e diminuir a rotatividade.

 

 

“Experiências internacionais mostram que, quando implementada com planejamento e diálogo, a redução da jornada contribui para melhor organização do trabalho e ganhos de produtividade”, defende o governo.

A discussão também aproxima o Brasil de mudanças já adotadas em outros países. O Chile aprovou a redução gradual da jornada de 45 para 40 horas semanais até 2029, enquanto a Colômbia reduz a carga horária de 48 para 42 horas até 2026. Na Europa, países como França, Alemanha e Holanda já operam com jornadas iguais ou inferiores a 40 horas semanais.

Melhora na qualidade de vida

Lula e Hugo Motta. – (Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil)

O Governo Federal sustenta que a medida busca melhorar a qualidade de vida da população trabalhadora. Ao anunciar o envio da proposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a mudança permitirá mais tempo para estudo, descanso e convivência familiar.

“Hoje é um dia importante para a dignidade da família, de quem constrói o Brasil todos os dias”, declarou o presidente.

Segundo Lula, a proposta atende a uma demanda crescente por jornadas mais equilibradas e maior tempo para a vida pessoal.

“Todo mundo quer ter uma coisinha a mais. Eu quero trabalhar, eu quero ter uma jornada de trabalho menor do que a que eu tenho hoje. Ou seja, eu não quero mais trabalhar 48 horas, 40 horas. Eu quero colocar o fim da escala 6 por 1 porque a juventude quer mais tempo para estudar, as pessoas querem mais tempo para ficar em casa”, afirmou.

 Pontos inegociáveis

Além disso, a proposta prevê um período de transição de um ano. Após 60 dias da promulgação da PEC, a jornada semanal seria reduzida em duas horas, com nova redução de mais duas horas após 12 meses. Segundo Hugo Motta, o fim da escala 6×1, a redução da carga horária e a manutenção dos salários são pontos “inegociáveis” do texto.

Ainda nesta segunda-feira, foi convocada uma sessão da Comissão Especial da PEC 221/2019 para análise da proposta. Caso não haja pedido de vista, o texto poderá avançar rapidamente na comissão e seguir para votação no plenário da Câmara ainda nesta semana.

Para a FCDL-MS, no entanto, a rapidez da tramitação também preocupa o setor produtivo. “O temor é que a velocidade da tramitação e os impactos diretos sobre a folha de pagamento acabem pressionando empresas que já enfrentam alta carga tributária, juros elevados e desaceleração do consumo”, afirmou a entidade.